?A nossa natureza consiste em movimento?, escreveu o francês Blaise Pascal, no século XVII. O que diria o matemático e filósofo, criador da primeira empresa de transporte coletivo na França, se pudesse dar uma espiadinha na ?tranqueira? que vivem os brasileiros? Todas as cidades, sobretudo as médias e grandes, enfrentam o desafio de encontrar soluções para a mobilidade urbana.

Em Veranópolis, a situação ainda não atingiu níveis extremos, mas já coloca em alerta setores que tratam do problema. Conforme dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), o número de veículos circulando nas ruas da cidade tem subido consideravelmente. A frota da cidade, que era de 10.830 veículos em 2007, passou para 17.182 em novembro de 2017, o que representa mais de 58% de aumento.

Considerando o total de habitantes de Veranópolis, conforme dados da estimativa de 2017 do IBGE (25.073 habitantes), ou seja, um veículo para cada 1,5 habitante.

Em Nova Prata e Vila Flores, o crescimento percentual no número de veículos foi ainda superior ao de Veranópolis. Os pratenses tinham em 2007, 10.344 veículos e passaram para 17.773, em 2017, o que representa um crescimento de 71%. Mesmo índice registrado em Vila Flores. O município tinha 1.528 veículos em 2007 e passou a 2.629, em 2017.

Cotiporã teve um crescimento de 605: eram 1.650 veículos em 2007 e passou em 2017, para 2.652. Fagundes Varela teve o menor índice de aumento no número de veículos da microrregião. Eram 1.167 em 2007 e aumentou para 1.783, em 2017. Um crescimento de cerca de 50%.

Compreendendo os cinco municípios, o número de habitantes chega a 60.738, conforme a última estimativa. O número de veículos alcança a marca de 42.019.

Dados de Veranópolis

Confira abaixo, o número de veículos pelos tipos mais comuns:

Automóveis: 10.003

Motocicleta, motoneta, ciclomotor: 2.159

Caminhões e caminhão trator: 1.337

Reboques: 662

Ônibus e micro-ônibus: 111

Utilitários, caminhonetes e camioneta: 2.885

Tratores: 16

Outros: 9

Alternativas locais

O aumento no número de veículos em Veranópolis vem chamando a atenção das administrações municipais. Nas últimas quatro gestões, o assunto sempre voltou a pauta, principalmente no que se refere ao estacionamento rotativo na área central.

Segundo o secretário Municipal de Infraestrutura, Urbanismo e Trânsito, Romeo Tedesco, na atual gestão não está sendo diferente. Estudos estão sendo desenvolvidos afim de avaliar os projetos que poderão ser concretizados. ?Apenas criar o estacionamento rotativo não resolve. O fluxo continuará o mesmo. Precisamos pensar além?, destaca.

Romeo enfatizou que a prefeitura deve aguardar a conclusão das obras de revitalização da Avenida Osvaldo Aranha. As melhorias incluirão alargamento das esquinas e calçadas e criação de rotatórias maiores, o que deverá resultar na diminuição de três a quatro vagas de estacionamento. ?Pensamos também na possibilidade de tornar partes da Júlio e da Osvaldo, em mão única, mas isso é quase impossível. Colocar sinaleiras também dificulta. Às 3h da tarde não teríamos tanto fluxo para termos uma sinaleira. Já às 11h30min, teríamos a formação de fila que se estenderia quadras acima no sentido bairro/centro da Júlio?, ressalta.

O modelo para a instalação das rotatórias seria baseado no exemplo de Nova Petrópolis. ?Ele faz o fluxo andar?, resume o secretário.

Ainda, segundo ele, o Plano Diretor do município deve ser concluído em seis meses e também deverá apontar alternativas para a mobilidade urbana. Para o caso do estacionamento rotativo, a empresa que desenvolve o serviço em Carlos Barbosa já esteve analisando a situação do município e apontou que em Veranópolis existem mais pontos de cobrança de estacionamento. O projeto está sendo estudado e Tedesco não descarta a possibilidade de realização de testes, pois segundo ele, os condutores poderão migrar para áreas onde não há a cobrança, para não pagar o valor.

Em Nova Prata, foram instaladas as placas que orientam o tempo de estacionamento na zona azul no centro. Não há cobrança de estacionamento e a ação integra uma campanha de conscientização para que os motoristas respeitem o tempo máximo de permanência de 30 minutos nos locais indicados. A cobrança no futuro não está descartada.

Ascenção da economia

O salto na quantidade de automóveis rodando em Veranópolis e no país como um todo é explicado por especialistas pelo desempenho da economia brasileira. Há alguns anos, devido a melhora na renda per capita, a redução nas taxas de juros e a facilidade na hora de parcelar a compra motivaram a ascensão das classes C e D. Esse conjunto de fatores concretizou o sonho da aquisição do carro próprio. ?Antes eram 60 milhões nas classes C e D. Agora, depois de todos esses programas sociais, chegamos a 100 milhões de pessoas. Ou seja, metade dos brasileiros faz parte da classe média?, explica o economista e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Alfredo Meneghetti.

Um estudo produzido por profissionais da Fundação de Economia Estatística (FEE) mostra que, para manter um carro popular que custa R$ 25 mil, o cidadão gastará os mesmos R$ 25 mil em dois anos e meio com despesas como seguro, gasolina e manutenção. ?Hoje vale muito mais a pena sair de táxi se você anda um trecho de até 15 km por dia. Se for a partir disso, aí sim, vale a pena ir de carro?, pondera Meneghetti.

O economista destaca a importância de investir em uma reeducação das finanças pessoais: criar o hábito de aplicar uma quantia na poupança e ficar atento aos perigos da inadimplência. ?Vejo no futuro esse número [de habitante/carro] se tornar ainda maior. Não devemos chegar a um nível como existe nos Estados Unidos, mas estamos próximos a atingir números de países desenvolvidos?, preocupa-se.

De fato, os números de Veranópolis são comparados aos de países como Japão, França, Espanha e Alemanha, todos com cerca de 1,7 habitante por carro, segundo um levantamento elaborado pela equipe de alunos do Laboratório de Sistemas de Transporte do curso de Engenharia da Produção da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Diante de tantos carros, o tráfego intenso acaba sendo inevitável.

PELO MUNDO

Sem Taxas Extras

Los Angeles, na Califórnia, nos Estados Unidos, incentiva a carona solidária desde os anos 60, quando instalou faixas para automóveis com pelo menos dois ocupantes. Carros elétricos e alguns híbridos também podem acessar a faixa. Esses corredores recebem 1,3 mil veículos por hora, enquanto pelas normais passam 1,8 mil em média. Quem desrespeita é multado.

Preferência

No Reino Unido, além de faixas exclusivas, os ônibus têm prioridade semafórica. Funciona assim: se o sinal estiver quase fechando e identificar um coletivo se aproximando, ele fica aberto por mais tempo. Segundo a RAC, instituição de pesquisa de transporte de Londres, dos mais de 6 mil semáforos inteligentes que a capital britânica possuía em 2008, 3.200 eram programados para dar prioridade ao transporte público. Curitiba tem sistema similar no Brasil.

Integração

Brisbane, capital do estado australiano de Queensland, investe no modelo ?Park and Ride? (Estacione e Pedale). O conceito é construir estacionamentos próximos a estações de trem,m metrô e ônibus. A medida traz dois benefícios: o motorista não precisa andar de casa até o transporte público e evita congestionamentos nos centros comerciais. Sem contar que o dono do automóvel não precisa pagar altos preços de estacionamento.

Foto: Leandro Galante

Fonte: 96.1 FM