A (in)tolerância

As flores toleram as abelhas, mesmo se estas lhes tiram o néctar, mesmo se, por vezes, por acidente, uma pétala se machuca. A natureza tolera os ventos que arrastam folhas e quebram os galhos, tolera as torrentes e correntes que não perguntam o que carregam na sua passagem. A própria lua tolera as mudanças e acolhe serenamente cada fase com dignidade. Só nós, humanos e racionais, somos assim… intolerantes com a vida, com o próximo… com o que nos acontece, com o que deixa de nos acontecer, com as diferenças e os diferentes que mal suportamos. Damos de nós e queremos ficar inteiros; recebemos e queremos continuar os mesmos, abastados do nosso eu… sem as máculas dos pecados que nos deixariam iguais a todo mundo. Queremos amar o que nos é próximo, pois nos disseram: ama a teu próximo… sendo que esse outro deve ser uma correspondência daquilo que somos. O que é diferente nos decepciona e nos faz sofrer. Por isso cobramos tanto dos outros e permitimos que essa negra nuvem encha nossa alma de tristeza… ao depararmos com ações e reações diferentes das que esperamos. Mas não é amar tolerar que o outro seja outro… e aceitar com resignação e alegria até que, mesmo nos possíveis deslizes, esse encha nossa vida de novos ares e novas flores?! A tolerância é uma incontestável prova de amor e de humildade; é o eu que se inclina para se reerguer mais rico, mais pleno, mais aberto, mais solto e mais livre. Mais livre!!!! E por isso mais feliz! Ser flexível na vida não é se curvar. É simplesmente abrir-se como se abrem nossas janelas para que o sol entre e ilumine nosso recinto. É um ceder que nos enobrece, pois nos permite degustar da vida nos seus mínimos detalhes.
Fonte:Letícia Thompson

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