10 anos da prisão de Seco

Lajeado – 2h30min da manhã. 13 de abril de 2006. Reina o silêncio na BR-386. Apenas alguns carros passam e iluminam a estrada escura. No Posto do Rosinha, localizado em Linha Bom Jardim, no quilômetro 374 da BR-386, um Audi preto ocupado por dois homens é lavado por um frentista. O motorista, magro e com cabelo precisando de corte, e o caroneiro, um homem grande e gordo, estão em silêncio, tensos. Dentro do carro está um arsenal de armas – fuzis Fal e AK-47, duas pistolas 9 milímetros, uma pistola ponto 40, dois coletes à prova de balas, uma granada, carregadores de pistola e fuzil, um pote de vidro carregado com “miguelitos” (ferros retorcidos usados para jogar no chão e furar pneus de perseguidores), além de uma touca ninja e dois celulares.
No escuro, próximo dali, três viaturas policiais chegam em silêncio. Fecham as saídas do posto de combustíveis uma picape da Polícia Rodoviária Federal, ocupada por dois agentes, e duas viaturas discretas do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) – ocupadas por um comissário e três inspetores da Polícia Civil. O objetivo é capturar, vivo ou morto, o criminoso que aterrorizava o Estado nos últimos anos: José Carlos dos Santos, o “Seco”.
Minutos depois, apavorado, o frentista Alceu Azevedo de Oliveira, que havia abastecido o carro dos criminosos com R$ 100 de gasolina e recebido R$ 10 para lavar o veículo – acompanharia o desfecho de uma ação policial que levaria à prisão o bandido número 1 do Estado.
Durante quatro intermináveis minutos, uma atordoante troca de tiros quebra o silêncio do posto de combustíveis, que serve ainda hoje como paradouro de viajantes e hospedagem. Doze tiros de fuzil cravam de buracos as viaturas policiais. Nenhum agente é ferido. Seco e seu parceiro, Carlos Henrique Fernandes, o “Gordo”, acabam baleados pelos policiais. Seco finge-se de morto para evitar mais tiros; Gordo atravessa a BR-386, mesmo ferido com um tiro no joelho, para tentar escapar, mas acaba preso.
A ação rápida e violenta coroava um esforço de quatro anos, envolvendo toda a Polícia Civil, Brigada Militar e Polícia Federal, e que nos últimos dias havia se intensificado. O ataque à empresa de transporte de valores Proforte, de Santa Cruz do Sul, três dias antes, havia sido o ápice: um capitão da Brigada Militar fora morto com um tiro na cabeça, e Seco precisava, mais do que nunca, ser detido.
Entre 2002 e 2006, o nome do criminoso ganhou páginas policiais e rodas de conversa em todo o Estado. A cada novo assalto, explosão ou ataque violento, no Rio Grande do Sul ou Santa Catarina, José Carlos dos Santos – que em Candelária, cidade onde nasceu, era conhecido como “Zé da Retro” – ganhava dinheiro e fama.
O criminoso tinha ligação íntima com o Vale do Taquari, região onde acabaria preso. Em Lajeado vivia uma de suas namoradas, e era no bairro onde a jovem vivia que muitas vezes ele encontrava refúgio para escapar do cerco policial. Conta-se que parte da milionária cifra que angariou em seus anos de crime foi escondida na região, mas o dinheiro nunca foi encontrado. Entre 2004 e 2005, calcula-se, mais de R$ 8 milhões foram roubados em 15 assaltos.
Entre as diversas condenações judiciais, a primeira de sua vida foi referente a um dos dois ataques impetrados contra a praça de pedágio de Marques de Souza, em 2004. Na época, usando dinamite, explodiu o posto de cobrança e levou quantia em dinheiro não revelada. Graças a este ataque a quadrilha começaria a ser desbaratada. Ou, no jargão policial: “A casa começava a cair”.

A prisão

Policial civil e chefe da Seção de Investigações da Polícia Civil de Lajeado entre os anos de 2003 e 2011, Paulinho Cavalheiro coordenou diversas investigações sobre José Carlos dos Santos. As delegacias de Lajeado e de Santa Cruz eram as mais interessadas no criminoso e acompanhavam com atenção sua movimentação pelo Estado. “Começamos a registrar assaltos violentos em praças de pedágios e grandes empresas, e não sabíamos quem estava coordenando estas ações. Eram ataques diferenciados, com quadrilhas grandes e armamentos totalmente diferentes do que estávamos habituados”, relembra.
“No dia 8 de janeiro de 2004 recebi uma ligação de um segurança da Sulvias (proprietária da praça de pedágio atacada) informando o nome de um possível integrante do bando. Através desta ligação prendemos Júlio César Reis Costa, o “Zoreia”, um de seus comparsas”, relata. O informante que levou à prisão do criminoso era um profissional da área de saúde que havia recebido de Zoreia, como pagamento por um serviço, centenas de moedas roubadas do posto de pedágio.
A partir desta prisão, e com a colaboração de Zoreia – que atuava geralmente como motorista dos ataques -, as ações do bando de Seco passaram a ser monitoradas por dezenas de grampos telefônicos Era a primeira vez que a polícia conseguia acompanhar os passos do criminoso que andava rápido para se tornar um bandido famoso. Até então, os investigadores estavam sempre um passo atrás.
Durante o ano de 2004, Polícia Civil e Brigada Militar caçaram o bandido pelos dois Estados do Sul do país. Seco ultrapassava a fronteira com o objetivo de escapar do cerco policial e também arrecadar mais fundos: a cada assalto, ganhava respeito entre os seus, dinheiro e fama. Neste período foi alçado à categoria de criminoso número 1 do Estado.

Inteligente e exibido

Três características marcantes do criminoso que assustou o Estado entre 2002 e 2006: ciumento, exibido e inteligente. O trio de adjetivos é consenso entre os policiais que o investigaram. “Ele sempre alardeou seus ataques, admitia que era o número um, gostava de usar explosivos e sonhava que seus roubos virassem filme. E também tem muito ciúme de suas namoradas”, analisou um policial, na época da prisão.
“Seco era um bandido inteligente. Foi ele quem trouxe para o Estado a ideia de jogar caminhões contra carros-forte blindados, a fim de roubá-los. Depois de sua prisão poucos ataques como este ocorreram no Estado – até por que o motorista, que em geral era ele mesmo, tem que ser um pouco suicida”, conta Cavalheiro, que admite: “Havia muita história, muita fantasia, muita conversa sobre suas ações. Mas o que se sabe é que ele conseguiu reunir bandidos de alta periculosidade e que só cometiam assaltos milionários.”
Mesmo tendo estudado apenas até a 5ª série do Ensino Fundamental, José Carlos dos Santos sempre se destacou entre bandidos comuns. Era tido como alguém de sorte e capaz. Durante seu “reinado”, pelo menos 20 comparsas foram presos, mas ele seguiu livre. Quase não usava celular – temia ser grampeado. Até sua prisão a polícia tinha apenas uma fotografia do criminoso – fora de foco, acompanhado da mulher e do filho.
Todas as estórias ajudavam a alimentar a fama. “No início de 2004 Seco foi cercado pela polícia em Fazenda Vilanova. Houve troca de tiros e, dali, surgiram duas novas lendas – que não se confirmaram: uma dava conta de que teria sido baleado no olho e ficado cego; outra, que havia sido ferido nas costas e havia ficado semi-paralítico. Em 2005 outra estória rodou entre policiais do Estado: Seco teria feito uma plástica e modificado por completo suas feições – o que também não aconteceu.

Um histórico

Filho da localidade de Redentora, no interior de Candelária, estudou até a quinta-série do Ensino Fundamental. Criança de classe média até os anos 1990, acompanhou na sua adolescência a separação dos pais. Foi operador de máquina e motorista, chegando a ganhar R$ 100 por semana. Na época, reclamava que não tinha condições de sustentar mulher e filho. Em 2001, conheceu um assaltante e passou a roubar e a usar drogas. Logo depois, com tática copiada de filmes americanos, passou a atacar carros-forte usando caminhões roubados.
Ao passar à condição de bandido mais procurado do Rio Grande do Sul (elevado à categoria de criminosos antigos como Papagaio e Melara), José Carlos dos Santos não teve mais tinha sossego. Em Lajeado tinha esconderijos nos bairros Planalto, Conventos e Olarias, onde teria uma namorada. Buscou parceiros de crimes nos bairros Santo Antônio, Santo André e Moinhos – de onde, dentro de um bar, controlou, via celular, o ataque simultâneo a duas agências bancárias de Marques de Souza.

Em questão

Ex-chefe de Polícia do Estado, delegado Ranolfo Vieira Júnior
1 O Informativo – O senhor foi um dos delegados responsáveis pela prisão de Seco, ocorrida há exatos dez anos. Ele foi mesmo um bandido diferente dos demais?
Vieira Júnior – Nestes dez anos após a prisão dele nunca surgiu outra liderança criminosa assim, especialmente em questão de roubo a transporte de valores, e que tenha tido a durabilidade que teve aquela quadrilha. Ele era sim diferenciado.

2 – O que levou Seco a ter sucesso no mundo do crime – até ser preso?
Vieira Júnior – Foi uma série de fatores, entre eles uma prática nova que se iniciava no Estado e não tinha outros bandidos que faziam. Outro ponto era que os bandidos que trabalhavam com ele eram todos de primeira linha e com experiência no mundo do crime. Também utilizavam armamento diferenciado e conseguiam, a cada assalto, capitalizar-se mais um pouco. Assim, cada vez tinham mais e melhores armamentos, conseguiam melhorar seu planejamento. Estes foram os fatores de sucesso.

O Informativo – Os órgãos de segurança estavam todos focados nesta captura, certo?
Vieira Júnior – Sim. Fui guindado à direção do Deic em 2005 com a missão de prender o Seco e desarticular sua quadrilha. Levamos mais de um ano para conseguir isso. Criamos um grupo especial formado por quatro delegados e 25 agentes com a missão específica de prender o criminoso e desarticular seu grupo. Isso mostra a importância daqueles criminosos. Não tenho dúvida que nossa ação teve resultado extremamente positivo e teve um efeito importante – embora tenham surgido alguns ataques semelhantes, esporádicos, nos anos seguintes, não ocorreram mais ações assim. Mas sem dúvida alguma ele serviu como escola.

Histórico de crimes
– 16 de abril de 2003 – Por volta das 18h40min, um caminhão choca-se contra um blindado da Proforte, na RSC-287, em Venâncio Aires. Bandidos levam malotes com dinheiro e matam o vigilante do carro-forte, Ricardo Selbach (28).

– 7 de outubro de 2003 – Às 8h30min, no quilômetro 210 da RS-453, em São Francisco de Paula, Seco e mais sete comparsas assaltam um carro-forte, depois de roubar pelo menos dois automóveis. Em 10 de agosto de 2005, José Carlos dos Santos é condenado em primeira instância a 25 anos de reclusão pelo crime. Ele recorre da decisão.

– 5 de janeiro de 2004 _ Seis assaltantes, entre eles Seco, roubam a praça de pedágio de Marques de Souza durante a madrugada. Munido de armas de grosso calibre, o bando invade o escritório da concessionária, explode o cofre da empresa e destrói parte do prédio. Na fuga, a quadrilha rouba o Gol de um motorista que passa pelo local. Em julho de 2005, Seco é condenado em primeira instância a 10 anos e seis meses de reclusão em regime fechado. Os advogados dele abandonam o caso antes da sentença.

– 4 de fevereiro de 2005 – Criminosos utilizam um ônibus escolar para bloquear dois carros-fortes e roubar R$ 700 mil de um blindado em Veranópolis. O assaltante Eduardo Miguel Lara (31) morre na ação.

– 6 de junho de 2005 – Utilizando um caminhão frigorífico e um Golf, a quadrilha de Seco intercepta dois blindados da empresa Proforte. Os assaltantes Júlio César Feiten dos Reis (38) e Edgar de Souza (37) morrem no confronto. Nenhum malote é roubado. Na fuga, o bando rapta um casal com um bebê de apenas duas semanas. A família é libertada na Avenida Benjamin Constant, Bairro Montanha, em Lajeado. Os bandidos fogem.

– 1º de dezembro de 2005 – Às 8h28min, no quilômetro 110 da RST-453, em Farroupilha, um blindado da Proforte é atacado por uma quadrilha liderada por Seco. Os bandidos roubam R$ 900 mil e matam os vigias Anderson Roberto Santos Pivotto (29) e Neri dos Santos (35).

– 14 de janeiro de 2006 – Uma ação comandada pelo Deic prende dois comparsas de Seco em um camping, em Curumin, no Litoral Norte. O criminoso mais procurado do Estado foge ao perceber a movimentação. A troca de tiros entre a polícia e os bandidos vitima Francisco Ferreira (3), que morre atingido por uma bala perdida.

– 22 de janeiro de 2006 – O jornal Zero Hora publica o que seria um plano de Seco para roubar um avião que transportava R$ 10 milhões no aeroporto de Osório. Polícia não confirma a veracidade do plano.

– 10 de abril de 2006 – Por volta das 22h15min, bandidos atacam a sede da empresa de transporte de valores Proforte, no centro de Santa Cruz do Sul. Para invadir o local, a quadrilha utiliza um caminhão roubado de uma concessionária de rodovias, que é jogado contra o muro da empresa. O capitão da Brigada Militar, André Sebastião dos Santos, aborda os criminosos e morre com um disparo de fuzil. Uma policial militar que auxilia na ação e um estudante que passa pelo local ficam feridos. O bando foge com valor estimado em R$ 3 milhões.

– 13 de abril de 2006 – Às 3h, José Carlos dos Santos (26), em companhia de um comparsa, é baleado e preso por agentes do Deic, no posto do Rosinha, em Paverama.
* Informações baseadas nas versões da polícia

Crédito da notícia: Emilio Rotta
Última atualização: 13 de abril de 2016 às 08h13min

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Fonte: Jornal O Informativo do Vale

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